terça-feira, 15 de maio de 2012

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A parábola do mundo doente (ou a utopia da cura)

Uma dor comprimida,
Com pressa
Disfarçada de insônia
Inquietações em gestos dormentes
Como imagens de um filme fantástico
Rodando em minha cabeça,

Assim contemplo meu pessimismo
Diante de uma solução improvável
Para este mundo doente,
Que me adoece
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quarta-feira, 2 de maio de 2012

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O trem de todos

O Trem de todo dia
das primeiras horas
do aperto incômodo
dos atrasos de sempre
dos que vão em pé
dos que conseguem lugar
dos que sentam no chão

O Trem dos que empurram para entrar
dos que são arremessado quando abrem as portas
das histórias que se houve
dos marreteiros que vendem
dos seguranças à paisana que tomam mercadorias
dos que pedem o que comer, o que comprar
dos que param em estações antigas

O Trem do cheiro das pastilhas de freio
dos que pegam o primeiro
dos que perdem o último
dos que puxam conversa
dos que estudam
dos que leem
dos que ouvem música em volume alto

O Trem dos que sentam nos bancos reservados
dos que dão o lugar
dos que brigam e brincam 
dos que pregam a palavra
dos que jogam o lixo pela janela
dos que varrem a sujeira do chão
dos que seguram a porta para os atrasados

O Trem dos que dormem no ombro de quem estiver do lado
O Trem,
Porque quem vai no trem, tem sempre um pouco de trem
nos olhos, nos ossos aço, no suor, nas almas.
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domingo, 29 de abril de 2012

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Os Três mal-amados, Por João Cabral de Melo Neto

As falas do personagem Joaquim, do poema "Os três mal-amados", em que diz da fome devastadora do amor que tudo devora e nunca se sacia. Um amor multipluralista e atemporal que não escolhe o cardápio nem seu hospedeiro e que cresce dentro de todos nós, as vezes silenciosamente, as vezes caótico como um tsunami.
A banda Pernambucana Cordel do Fogo Encantado, fez uma leitura de um trecho do poema, muito boa por sinal. Ouça na voz de Lirinha no player abaixo.
Deguste sem moderação.



Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado,
provavelmente declamando este poema
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

Música: Dos três mal-amados, do álbum O Palhaço do Circo Sem Futuro, de 2003 - Cordel do Fogo Encantado
Leia mais do autor em Releituras
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quinta-feira, 26 de abril de 2012

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A puta

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na Rua de Baixo
onde é proibido passar.

Onde o ar é vidro ardendo
e labaredas torram a língua
de quem disser: Eu quero
a puta
quero a puta quero a puta.

Nu reclinado (1897) - Toulouse-Lautrec 
Ela arreganha dentes largos
de longe. Na mata do cabelo
se abre toda, chupante
boca de mina amanteigada
quente. A puta quente.

É preciso crescer
esta noite a noite inteira sem parar
de crescer e querer
a puta que não sabe
o gosto do desejo do menino
o gosto menino
que nem o menino
sabe, e quer saber, querendo a puta.

Por Drummond

Leia mais Drummond no Memória viva e no site dedicado ao autor www.carlosdrummonddeandrade.com.br
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terça-feira, 24 de abril de 2012

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Silêncio

“Para que ninguém possa ver no fundo de mim e da minha última vontade – para isso inventei o longo, luminoso silêncio”.

“Não falamos um com o outro, porque sabemos coisas demais; silenciamos um com o outro, num mútuo sorriso nos lançamos o nosso saber”.

“Se este decifrar é lento, posso gastar uma vida toda nisso e então é vantajoso para ti manteres-te em silêncio, porque assim não te conheço e posso tudo imaginar”.

“Hesitamos em fazer a pergunta porque não queremos ouvir a resposta. Prosseguimos em silêncio”.

“Então calar: usar
Um silêncio artifício”.

“Quanto mais os vigiava e ficava à espera, mais me convencia de que, mesmo à falta de qualquer outra prova, o silêncio sistemático de ambos constituía prova suficiente”.

“Em tempos de silêncio generalizado, conformar-se com a mudez dos outros é certamente culpável”.

“Debaixo do silêncio
eu não sei o que traziam”.

in Sob Neblina (Em Segredo), de Marilá Dardot


[A poética da artista parte de uma pesquisa com a palavra. Desde 2004 ela trabalha a série “Sob Neblina”, um arquivo de frases que têm como fio condutor a palavra “silêncio”, selecionadas em livros que lê. Marilá Dardot então classificou dez tipos de silêncio, “na tentativa de mostrar os múltiplos sentidos desta palavra”.]

o silencio, em certo sentido, também é palavra... ou antes, é a anti-palavra do corpo, dos olhos que não cabe em nenhum código simbólico.
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segunda-feira, 23 de abril de 2012

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Carinhoso por Marisa Monte e Paulinho da Viola

Hoje, 23 de abril, comemora-se o dia nacional do choro, criado em 2000, em homenagem ao nascimento de Pixinguinha, compositor do choro Carinhoso (embora o próprio autor a chamasse de polca no início, tendo só muito tempo depois a considerado um choro).  A música composta no início do Século XX, precisamente entre 1916 e 1917, tem uma história curiosa e inusitada: Pixinguinha manteve-a na gaveta por mais de dez anos; os motivos ele explicou no depoimento que deu ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro em 1968:
"Eu fiz o 'Carinhoso' em 1917. Naquele tempo o pessoal nosso da música não admitia choro assim de duas partes (choro tinha que ter três partes). Então, eu fiz o "Carinhoso" e encostei. Tocar o 'Carinhoso' naquele meio! Eu não tocava....ninguém ia aceitar".

Só em 1936 é que Braguinha (também conhecido por João de barro) a convite de sua amiga atriz e cantora Heloísa Helena, por mero acaso fez uma despretensiosa letra para Carinhoso, a fim de tornar marcante a presença da atriz no espetáculo "Parada das Maravilhas", promovido pela primeira dama, dna. Darcy Vargas, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Braguinha relata como aconteceu:
"Procurei imediatamente o Pixinguinha, que me mostrou a melodia num dancing onde estava atuando : No dia seguinte entreguei a letra a Heloísa, que muito satisfeita, me presenteou com uma gravata italiana".


Então, com  letra e música, Carinhoso veio a se tornar um dos maiores clássicos da MPB,  com sua primeira gravação em 1937, cantada por Orlando Silva, o "cantor das multidões". Até hoje já teve mais de 200 regravações.

Carinhoso

Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim.

Ah se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero.
E como é sincero o meu amor,
Eu sei que tu não fugirias mais de mim.

Vem, vem, vem, vem,
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus.
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz,
Bem feliz.

Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz
Logo abaixo a versão cantada por Marisa Monte e Paulinho da Viola. Vale a pena.


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Remix século XX, de Waly Salomão


Qual não foi minha surpresa quando encontrei essa pérola colhida, ou antes, esculpida pelo poeta baiano Waly Salomão... simplesmente uma ode ao nosso caótico século XX, e declamado/musicado lindamente por Adriana Calconhoto que invoca uma batida eletrônica feito com o pé como um xamã indígena no meio de um furacão puts-puts de uma imensa metrópole.


Leia e ouça! Comente!



Armar um tabuleiro de palavras-souvenirs.
Apanhe e leve algumas palavras como souvenirs.
Faça você mesmo seu micro tabuleiro enquanto jogo lingüístico.

Babilaque, pop, chinfra, tropicália, parangolé, beatnick, vietcong,
bolchevique, technicolor, biquini, pagode, axé, mambo, rádio,cibernética;

Celular, automóvel, buceta, favela, lisérgico, maconha, ninfeta, megafone, microfone, clone, sonar, sputinik, dada;

Sagarana, estéreo, subdesenvolvimento, existencialismo, fórmica, arroba,
antiquarios, motossera, mega sena;

Cubofuturismo, biopirataria, dodecafônico, polifônico,
Naviloca, polivox, polivox, polivox, polivox...


por Waly Salomão

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domingo, 22 de abril de 2012

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Sede de Viver


Sede de Viver: 
o melhor filme sobre Van Gogh feito por gênio dos musicais de Hollywood
por Chico Lopes
                                                                                        

O Cinema tem lá a sua tradição de filmes sobre pintores, mas não faz filmes exatamente memoráveis sobre eles. Gauguin, Modigliani, Toulouse-Lautrec, Cézanne, Pollock, Picasso, já tiveram suas cinebiografias, alguns até mais de uma. Um caso curioso envolve dois filmes sobre Gauguin — o pintor foi interpretado num filme dinamarquês por Donald Sutherland, Um lobo atrás da porta, e décadas depois pelo seu filho, Kiefer Sutherland, em Rumo ao paraíso. Nenhum dos dois foi um grande sucesso. São apenas medianos.

Há coisa de três anos, Modigliani foi vivido por Andy Garcia — não muito convincentemente — em Modigliani. A respeito deste gênio italiano, diz-se que o melhor filme a seu respeito é Os amantes de Montparnasse, em que é interpretado pelo falecido e esquecido ator francês Gérard de Philippe. E este filme não existe, infelizmente, em VHS ou DVD.

Sobre Toulouse-Lautrec, há o famoso Moulin Rouge, de John Huston, que é, infelizmente, dos mais frouxos filmes feitos pelo diretor. Já Jackson Pollock, mestre do expressionismo abstrato e da "action painting", foi vivido em cinebiografia recente — Pollock —  por Ed Harris, e com talento. O filme, no entanto, não tinha nada a oferecer senão uma transcrição meio canhestra da vida do pintor. E sua personalidade — a julgar pelo que foi mostrado — era tão turbulenta, difícil e egocêntrica que a gente sentia era compaixão da mulher que o amava, vivida pela atriz Márcia Gay Harden. Um dia ao lado de Pollock seria uma provação para qualquer ser humano razoável. Mas ela ficou lá, impávida, ao lado dele, por muito tempo.

Invariavelmente, os pintores no cinema não são criaturas muito simpáticas. Serão assim na vida real? Picasso comparece, na interpretação de Anthony Hopkins em Amores de Picasso, como um sátiro irresponsável, deixando malucas as mulheres que o amam. Modigliani é um conquistador irresponsável também, no filme em que é interpretado por Andy Garcia. Gauguin, já se sabe, mereceu até livro de Somerset Maugham (Um gosto e seis vinténs) por sua rebeldia contra a civilização, deixando mulher e filhos e a Europa toda pela incerteza e a aventura do Taiti.

Mas, esses românticos e lunáticos senhores, com seus pincéis maravilhosos, são um problema danado para as pessoas que os cercam. Parecem tomados de tal maneira por sua arte que um egocentrismo atroz os torna monstruosos, e, como são identicamente cativantes, amá-los é cair na fogueira, não há garantia de nada — eles só têm compromissos com suas visões interiores e um desligamento total dos valores convencionais. O curioso é que essa visão acabou ficando... convencional também, ao menos do ponto de vista do cinema comercial ou dos best sellers literários.


Vincent: Paradigma e Mistério

Talvez em razão dessa vulgarização, quem dispara na frente no número de adaptações de sua vida para o cinema é Vincent Van Gogh, claro. Talvez por ser o mais paradigmático dos pintores, ao menos na visão cinematográfica. Ele é tudo isso — um problema para a família, um problema para os amigos, e, acima de tudo, um enorme problema para si mesmo. O imaginário popular o consagrou como o louco que cortou a própria orelha e certos fatos de sua vida parecem importar mais do que sua própria pintura. Alçou-se à condição de lenda, com tudo quanto isso tem de grandioso e equivocado.

Os filmes sobre ele são sempre os mais procurados, e há pelo menos três em VHS e DVDs, sendo o mais lembrado Sonhos, de Kurosawa, onde é vivido por Martin Scorsese, no episódio do trigal com corvos. É só um episódio, mas a tecnologia permitiu que as imagens das telas mais queridas de Van Gogh comparecessem com a força impressionante que sempre tiveram. Os outros dois filmes são Van Gogh, de Maurice Pialat, francês, e Van Gogh — Vida e obra de um gênio, norte-americano, de Robert Altman. Não são grande coisa, o primeiro pelo terrível vício francês de fazer filmes em que a emoção é descarnada pelos discursos, a secura desdramatizante, as racionalizações, o falatório, e o segundo por ser uma redução de uma minissérie realizada para a televisão holandesa. Nos filmes, o pintor é interpretado por Jacques Dutronc e Tim Roth, respectivamente.

Até aqui, porém, não existia em VHS ou DVD brasileiro o maior dos filmes sobre ele, SEDE DE VIVER, dirigido por Vincente Minnelli em 1956. Encontrei-o milagrosamente numa simples banca de revistas, a um preço razoável, e não pisquei para adquiri-lo, temendo que fosse mesmo um milagre fácil de se volatilizar. Traz Kirk Douglas no papel principal, e podem esquecer todos os outros Van Goghs: ele é definitivo, com a barba ruiva, a expressão atormentada e uma dignidade a toda prova.

Também o filme é o melhor de todos. Dirigido por Vincente Minnelli, cineasta de musicais clássicos e definitivos como Agora seremos felizes e A roda da fortuna e de dramas como Assim estava escrito e Chá e simpatia, deu muito certo essa produção, e é o único Oscar da carreira de ator de Anthony Quinn — no papel de Gauguin, que, infelizmente, é curto, pois Quinn parece perfeito para encarná-lo e ele sim foi o Gauguin que os Sutherlands não conseguiram ser.

É uma coincidência feliz que Vincent fosse dirigido por um Vincente, esse Minnelli que, quanto mais filmes dele se revê, mais se percebe que foi um dos gênios do cinema de Hollywood, infelizmente meio esquecido hoje em dia (o sobrenome só faz com que as pessoas se lembrem de que ele foi pai da cantora Liza).

Minnelli tinha paixão absoluta pela pintura de Van Gogh, e o filme reflete isso: nele, a cenografia é superior a de qualquer outra produção, as locações foram escolhidas com dedo de mestre e, de vez em quando, o filme simplesmente pára para exibir telas e os lugares em que se basearam, provocando êxtases a partir do mais simples dos expedientes.

O que acontece de bom, nessa produção, é que Kirk Douglas é um Van Gogh contido, a julgar pelos padrões das cinebiografias de Hollywood que, exaltando os "grandes homens", sempre tenderam para o meloso e o piegas. Já que a história de Van Gogh é tão naturalmente tendente à ênfase e à hipérbole, Minnelli a conta com simplicidade, sem excluir a paixão. O cuidado que pôs na cor é um caso à parte: nunca se viu tamanha fidelidade à explosão cromática de Van Gogh em nenhum dos outros filmes. O filme é tão bom que o único pecado da produção é falhar no quesito trilha sonora: a música é de Miklos Rosza, que era compositor para épicos bíblicos e faroestes, tinha mão pesada e faz pensar demais na Hollywood tradicional. No resto, não há filme igual a esse, sobre o "fou rou" (o "ruivo louco", como chamavam Vincent pelas ruas da Provença).

Quem leu o livro homônimo que deu origem a esse filme? É de Irving Stone, pouca gente se lembra, mas é ótimo, e foi um best seller que fez muito pela divulgação da arte do holandês. Pois, é fielmente seguido. Mas, quem leu a comovente troca de cartas entre Van Gogh e seu irmão, Théo, e também o belíssimo Suicidado pela sociedade, de Antonin Artaud, encontrará razões de sobra para se deleitar com a produção.

É indispensável que os fãs de Van Gogh conheçam esse filme muito elevado e pouco concessivo, a despeito de sua aparente concessão às regras comerciais de Hollywood. É muito melhor que o filme de Pialat, e, por um certo pedantismo, certos fãs de Pintura, arte em geral, acham sempre que os filmes europeus seriam mais refinados e cuidadosos em relação a essas coisas. São, mas são também, em geral, presunçosos e, se franceses, particularmente chatos, discursivos e sem emoção.

Minnelli não tem medo de emoção alguma, e alguém que o tivesse não poderia filmar a vida de Van Gogh de modo algum. No filme, discutindo com Gauguin, em cenas que levam ao drama conhecido, entende-se que foi um homem de intensidades, de uma grandeza emotiva que primeiro esmagou a ele mesmo, como se fosse literalmente canibalizado por seus grandes sóis vertiginosos. Tratar Van Gogh com dietas cartesianas é um total pecado. Artaud, chegando às glossolalias em seu texto sobre ele, compreendeu-o muito bem.

Ele viu aquilo: a Morte na Luz, como, no filme, conta a uma freira de um manicômio, que se deslumbra com a figura da Ceifeira em meio a um campo vibrantemente amarelo de trigo. "Como pode haver Morte em plena beleza, em plena luz?".

Van Gogh, homem de mais sentir que falar, não consegue explicar. E o comovente é que é assim que ele morrerá: colhido pela Ceifeira, ardendo em sol e luz. Num final de uma beleza indiscutível. Na mais luminosa tragédia.



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O filme: Sede de viver (Lust for Live). MGM: Estados Unidos, 1956.
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abril, 2007
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

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Todas as Monalisas

Leonardo da Vinci (1452-1519), o maior expoente do Renascimento italiano e um dos maiores e mais completos artistas da humanidade, concebeu, entre 1503 e 1506, a obra mais enigmática da história da arte: Mona Lisa, também chamada "A Gioconda". 

A começar pelo quase sorriso nos cantos da boca, que não se pode dizer que ela está de fato sorrindo. Dizem que quem está triste a vê igualmente triste, o mesmo acontece quando se está de bom humor. Bem, 
já tive essa impressão e só impressão.

Outra questão muito discutida pelos historiadores é a identidade da modelo retratada. Uns dizem ser de uma mulher, esposa de um rico comerciante local, outros dizem se tratar de um auto-retrato do próprio Leonardo; há ainda quem diga que a pintura tem mensagens subliminares por trás de suas camadas de tinta;  e por aí vai entre outras controvérsias sem comprovações científicas confiáveis, em torno da obra mais conhecida do mundo. Por isso mesmo foi e ainda é inesgotavelmente revisitada, reproduzida e estilizada  por diversos artistas mundo a fora. 

Separei algumas releituras que valem a pena conhecer, mas antes a original aqui embaixo.

Mona Lisa - com a moldura em que é exposta no Museu
do Louvre em Paris


Em 1919, o dadaísta Marcel Duchamp, que no início do século XX, trouxe ao mundo das artes duas questões que mudaria para sempre a forma como entendemos e concebemos arte:  "o que faz com que consideremos um objeto arte? Qual a importância do gesto do artista na obra de arte?"; pintou sobre uma reprodução barata da Mona Lisa, um bigodinho e um cavanhaque, e a inscrição L.H.O.O.Q. - que lida em francês, assemelha-se a Elle a chaud au cul, algo como Ela tem fogo no rabo, em português. Um "Ready Made" irônico que brinca e questiona as controvérsias sobre a obra de Da Vinci.

Leia mais sobre a influência de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea:


Gioconda com chaves (1930) é a versão do desenhista e pintor cubista francês Fernand Léger (1881-1955).




Veja mais de Léger:



Provavelmente inspirado por Duchamp, Salvador Dali fez seu auto-retrato como Mona Lisa  em 1954. Ele utilizou elementos fotográficos de Philippe Halsman a partir de um catálogo de uma exposição no Museu de Arte da Filadélfia, EUA.


Salvador Dali
Auto-retrato como Mona Lisa.  1954.


Fernando Botero (1932 - ), pintor e escultor colombiano retratou a Gioconda (1963) com seu estilo marcante de figuras voluptuosas, o que seria, segundo alguns especialistas, uma crítica a estaticidade  da humanidade.





Veja mais de Botero:

Fernando Botero (em inglês)




E as releituras não param por aí, veja abaixo mais algumas:

Roy Lichtenstein

Andy Warhol

Matt Groening

E como se não bastasse apenas fazer releituras plásticas da obra, outros artistas também caíram na graça da Mona, como foi o caso dos músicos Elton John, Willie Nelson, Jorge Versilo,  Entre outros. Mas como este post já está ficando extenso demais, fiquemos com a versão de Nat King Cole de 1950, "Mona Lisa". Uma balada em homenagem ao quadro que lhe rendeu uma estatueta do Oscar de melhor canção naque ano, alem de ter sido o single mais vendido por 8 semenas seguidas a época. 



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G(j)ibóia aberta

Minha foto
Gilberto Araujo
Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Gil! ser gauche na vida, mas sobretudo, sou um fingidor. Finjo tão completamente que chego a fingir que sou ator, o ator que deveras sou. E aqui é meu canto. É neste moinho sob as hélices de alguns mestres que acordo meus sonhos imaginados, reais e impossíveis.
Leia a G(j)ibóia fechada